IMG_5104.JPG
Cerâmica.jpg
IMG_5106.JPG

GEORGE BARBOSA
LIBERTAR DO GESTO

 

George Barbosa é um pintor que impressiona.

Ao longo de suas mais de 4 décadas de trabalho, ele faz surgir, com cavalete, tintas, espátula e pincéis, desde uma campina até uma praia; levou-nos a atravessar uma vila ou a cidade de Paris; conduziu-nos com a mesma leveza de uma área suburbana dos Estados Unidos às alamedas paulistanas e às ladeiras da cidade de Olinda; entrou por estúdios de dança com a mesma intimidade que retrata amigos e que fotografou o inusitado.

Os caminhos trilhados por George Barbosa para compor a exposição Libertar do Gesto nascem da sua pintura espontaneamente gestual, executada como uma dança, em que a parceria entre a mão e o pincel se expressa em um ritmo inquieto e apaixonado.

O resultado final é um conjunto de pinturas, fotografias e cerâmicas que revela suas qualidades únicas como artista maduro em contínuo crescimento, promovendo uma exposição individual de zeloso valor estético, com obras de variedade surpreendente e notável.

A última mostra do calendário 2021 da Christal Galeria abriu seu espaço para o artista expandir seu espírito sensível e colocar toda sua plenitude nos diversos suportes que pesquisou, ao longo de sua vasta trajetória nos caminhos das Artes Plásticas.

Ao adentrar na exposição, o visitante mergulha em cada fase e percorre todos os espaços da galeria, preenchidos por fortes referências históricas. O início deste encontro se dá com as pinturas dos painéis Atlântico I e II, que nos remetem ao deslumbramento da infância quando nos deparávamos com a imensidão do oceano, num misto constante de temor e encanto, entrega e apreensão, brincadeira e medo.

Durante o percurso chegamos a um painel de pratos de barro, desenhados em homenagem à natureza, habitada por capivaras, tatus, caranguejos, cabras, peixes, todos numa mesma arca e  sobrevivendo sob o canto dos pássaros, de modo a nos acenar o tão sonhado equilíbrio ecológico, em linha com aquilo que nos tem proposto o filósofo Peter Pál Pelbart:  “É preciso desafiar a tirania da velocidade absoluta”.

Em seguida, passamos à série de aulas de danças, em que aparece Degas a orientar os alunos bailarinos que parecem ponteiros de marcar horas, tal a precisão dos gestos e expressões, ao mesmo tempo em que dialogam com as pernas de um frenético cancan  à moda francesa, de Toulouse-Lautrec. Já as bailarinas estão flagradas em um momento íntimo, pois, ao se trajarem de dançarinas, deixam de ser matéria física para transformarem-se em movimento.

Outro ponto alto nesse trecho da exposição é a tela que traz uma homenagem ao grande mentor Van Gogh, pintura forte, perturbadora e de um impulso impetuoso, como uma azulada noite estrelada.

Completam as pinceladas os desenhos do conjunto de rostos feitos com simplicidade e de rara beleza e o movimento das cidades, carregado de uma intimidade peculiar, na qual George traz à tona a feliz descoberta de nos vermos, de alguma forma, retratados ali, de modo tão vivo.

As fotografias, selecionadas dentre uma série, apresentam retratos de jangadas, focadas pelo artista de maneira sutil e que nos deixam em dúvida qual exata técnica foi usada, uma espécie de devaneio lúcido.

Desafiando o tempo linear, George Barbosa exterioriza, em seu trabalho, os gestos, os movimentos do corpo pleno, em momentos que se alternam dos traços largos aos delicados, passando do pontilhismo ao fauvismo, ao impressionismo e tantos outros ismos aos quais sua arte recorre. Arte e gestos livremente pintados e entrelaçados em figurativos recortes humanos, impregnados de sentimento e vida.

Como escreveu o poeta João Cabral de Melo Neto: “O que vive incomoda de vida o silêncio, o sono, o corpo que sonhou cortar-se roupas de nuvens. O que vive choca, tem dentes, arestas, é espesso”. Em Libertar do Gesto, George Barbosa incomoda de vida tudo que é concretizado por suas mãos reveladoras e sua intenção de refletir para a experiência do Belo, dando-nos uma espessa sensação de termos vivenciado aqueles momentos, mesmo sendo esta somente a experiência que os olhos viram, mas que, ainda assim, reverbera e toca quem contempla.

 

                                                                   Texto de Laurindo Pontes e Stella Mendes

Curadoria: Laurindo Pontes

Visitação:  de 02 de dezembro de 2021 a 28 de Janeiro de 2022

  • Black Instagram Icon
  • Black Facebook Icon