O barro, os devaneios e a vontade

A vontade é um buraco que carregamos por toda a existência. O devaneio é uma das condições indispensáveis para nos haver com isso, e a terra é aquilo que nos lembra dessa falta o tempo todo.

Quando uma ilusão acaba, ela não deixa nada - porque a ilusão nunca existiu. A terra, ao contrário, permanece. Ela não se dissipa com o fim do sonho; ela o sustenta. É nesse atrito entre permanência e devaneio que o barro se apresenta: sólido demais para negar a imaginação e volátil o suficiente para criá-la. O barro é a conformação sensível da insistência da arte em existir.

O barro, os devaneios e a vontade* nos convidam a pensar a matéria como força ativa, dotada de desejo, resistência e impulso.

Maleável, instável, sujeito ao tempo, ao gesto e ao acaso, o barro exige do artista um embate físico e poético - um intrincamento. Trabalhar com o barro é aceitar que a forma nunca é definitiva, que o controle é sempre parcial e que a criação se dá na negociação constante entre intenção e resistência.

Os artistas reunidos nesta exposição ativam o barro por meio de múltiplos suportes, linguagens e poéticas, ampliando sua condição para além do objeto cerâmico. Aqui, o barro aparece como processo, como memória geológica, como corpo, como ruína, como construção precária, como pensamento em estado de formação. Ele não é cenário, mas agente; não é base, mas conflito.

Assim como na Land Art e em práticas contemporâneas que operam diretamente sobre a matéria do mundo, o barro surge como um “adversário dinâmico”, para usar o vocabulário de Gaston Bachelard. Nesta exposição comemorativa dos cinco anos da Christal Galeria, a vontade da terra encontra forma no barro, e o barro devolve à arte sua dimensão mais antiga e, ao mesmo tempo, mais urgente: a de pensar com as mãos, sonhar com o corpo e aceitar que toda forma é, antes de tudo, um acontecimento.

Carlos Mélo

Janeiro de 2026

BACHELARD, Gaston. A terra e os devaneios da vontade: ensaio sobre a imaginação das forças. São Paulo: Martins Fontes, 1997.

Visitação:  05 de fevereiro de 2026 à 30 de abril de 2026