Pequena teoria do habitar

Uma cabeceira de berço costurada com retalhos de várias vidas. Pigmentos extraídos da terra e aplicados com mãos coletivas. Geometrias que vêm da paisagem antes de chegar ao bordado. Memórias que viajam dentro de um corpo em trânsito. "Pequena teoria do habitar" começa onde a maioria dos mapas termina. O que reúne as obras de Marcella Vasconcelos, Mônica Barbosa, Nita Monteiro e Ziél Karapotó é a tentativa de deslocar a definição de pertencimento, tornando visível como ele se inscreve. Os artistas elaboram o pertencer como uma prática errante.

Sem a necessidade de nomear, esse pertencimento se aproxima do que o corpo retém e do que insiste em reaparecer como matéria. Cada uma dessas pesquisas emerge de uma experiência situada, distanciando-se da universalização, e é exatamente dessa especificidade que surge algo que ultrapassa o particular.

Nita Monteiro se interessa pelo que os objetos domésticos guardam: o tempo impregnado no tecido, as conversas trocadas que persistem na madeira, o vestígio que uma vida deixa nas coisas. Há uma arqueologia nesse gesto que defende uma conexão profunda entre a obra e o espectador, que precisa trazer também o que carrega. Se, para a antropologia, são os fragmentos do cotidiano que resistem ao desaparecimento, como os potes, as ruínas e os objetos, Nita costura com a consciência da permanência silenciosa. Seus patchworks e assemblages recolhem achados de casas e a artista os reorganiza em novas existências, como se o material pudesse continuar a ser habitado mesmo depois de quem o habitou. Para a SP-Arte, ela traz uma instalação construída a partir da cabeceira do berço que foi do seu filho, onde bordados e objetos escolhidos se articulam em torno das águas como força condutora. Donna Haraway diz que nada se faz sozinho, que existir é sempre "fazer-junto" (sympoiesis), com outros corpos, outras histórias e outras mãos. O trabalho de Nita é uma obra feita com os rastros de quem já não está e que passa a existir nas subjetividades de quem o vê, um fazer-junto que embaralha a hierarquia das agências entre pessoas, natureza, animais, tecnologias e objetos.

Marcella Vasconcelos desenvolve sua poética a partir de uma atenção contínua à paisagem. Em Caruaru, onde nasceu, o fazer artesanal se integra à vida cotidiana, e essa relação atravessa sua produção. Seus trabalhos manifestam uma forma de escuta que transcende os canais auditivos e busca sustentar a leveza e o fluxo, ela diz “estamos sempre em casa”. A artista percorre a paisagem e devolve dela um mosaico de padrões que já estavam lá antes de qualquer gesto. Pelo bordado russo, Marcella elabora intervenções até criar uma linguagem única na qual a superfície deixa as texturas falarem por si. Sua pesquisa é uma continuação da natureza. Em Metamorfoses, Emanuele Coccia propõe que cada ser vivo é apenas um aspecto temporário que a vida assume para existir de modo diferente. Cada forma carrega dentro de si todas as formas que a precederam. O trabalho de Marcella opera com essa lógica, os padrões que ela investiga são reconhecidos e herdados, já estavam inscritos nos sistemas que a natureza repete em escalas diferentes.

Neste grupo de artistas, as pinturas de Mônica Barbosa surgem como estados, como momentos de transição que se perdem nos registros e carregam a dimensão quase ritualística de quem marca o momento de passagem. Mônica pinta o intervalo e o instante instável em que algo deixa de ser o que era e ainda não se tornou outra coisa. Coccia descreve a vida como metamorfose, uma condição permanente de toda forma viva, que nunca é fixa, sempre em passagem. Esse é o território que ela habita e que faz dele morada. O chão vermelho, as aberturas das pedras, o céu que penetra a pele, o lugar do silêncio, existe numa zona de transição do lugar onde vive e viveu, que se encontram e se misturam. Essa paisagem de fronteira se apresenta como composições cromáticas, com variações de tons terrosos e o azul amplo e constante. O corpo que aparece em suas composições atua como veículo condutor que, ao se mover, desabrocha o fazer artístico. Ele se abre para revelar paisagens internas. No ensaio "Batendo pernas nas ruas", Virginia Woolf descreve o momento em que o eu se desfaz e o que sobra é "uma ostra de percepção, um enorme olho" como um estado anterior a qualquer narrativa, onde a experiência pulsa. Essa qualidade atravessa as pinturas de Mônica quando ela pinta o pulsar.

Para compreender como o trabalho de Ziél Karapotó é formador nesse conjunto, recorremos primeiro a Ailton Krenak, quando compartilha que para os povos originários não é necessária uma filosofia, ou nesse caso uma pequena teoria, para se relacionar com a terra porque nunca se separaram dela. O que para o pensamento ocidental é, muitas vezes, metáfora para Ziél é prática concreta e cotidiana. O artista da comunidade Karapotó Terra Nova, em Alagoas, reverbera sua poética nas cosmologias de seus ancestrais. A partir de rituais como o Toré e o Ouricuri, Ziél investiga as intersecções entre corpo e território. Para a SP-Arte, o artista apresenta entre seus trabalhos uma série de pinturas inéditas realizada com pigmentos naturais aplicados diretamente com as mãos sobre a tela. O gesto rememora as pinturas corporais do povo Karapotó. Os grafismos que emergem têm contornos orgânicos, deixando que a matéria encontre sua própria forma ao ser inscrita. Em seu conjunto de pinturas há uma conexão entre os elementos que expandem a obra para além da superfície pictórica. Tudo o que elabora faz parte de um mesmo movimento contínuo e cíclico. 

Nessa pequena teoria do habitar, casa, corpo, natureza e território rompem hierarquias, diluem as bordas e buscam estruturar camadas permeáveis entre si. Uma teoria que nasce das vivências desloca os eixos que organizam a experiência. Para sentir uma pequena teoria do habitar, é preciso se deixar guiar pelos sons, pelo cosmos, pelos rastros e pelo instinto. Habitar se torna um constante ato de invenção.

Ana Carla Soler

Abril de 2026

Visitação:  08 de abril de 2026 à 12 de abril de 2026