TERRITÓRIOS DE ORIGENS

Artistas residentes

Olinda Tupinambá e Ziel Karapotó

Curadoria

A Residência Artística promovida pela Christal Galeria, realizada no território de Maragogi (AL), em 2024, com os artistas indígenas Olinda Tupinambá e Ziel Karapotó e curadoria de Aline Ambrósio, lançou-se como um gesto de escuta profunda, criação crítica e articulação poética entre arte, território e emergência climática global.

Partindo do princípio de que o território é um corpo vivo, com seus ciclos, saberes e espiritualidades, a residência propôs um mergulho sensível na rica biodiversidade de Maragogi —território costeiro inserido no bioma da Mata Atlântica, onde convivem manguezais, recifes de corais, restingas e uma fauna marinha ameaçada. Esse ambiente, ao mesmo tempo exuberante e vulnerável, tornou-se campo de experimentação para a produção de obras que denunciam os impactos da ação humana e evocam outras formas de relação entre humanidade e natureza.

Ambos artistas ativaram em Maragogi não apenas seus processos criativos, mas suas cosmovisões ancestrais, que reconhecem a interdependência entre todos os seres — humanos, animais, vegetais, minerais e espirituais. Suas práticas se insurgem contra o modelo civilizatório que devasta biomas, contamina peixes, mata espécies nativas e produz toneladas de lixo nas praias, revelando os sintomas locais de um colapso climático de dimensões planetárias.

Olinda Tupinambá, por meio de performances, vídeos e instalações, reinventa o gesto artístico como ritual de cura e denúncia. Utilizando resíduos encontrados nas praias — como fragmentos de plástico, areia, conchas e raízes —, transforma esses elementos em símbolos da resistência da terra frente à lógica do descarte. Suas ações rituais de purificação e reintegração com o mar são guiadas pela presença de Mãe D’água, entidade encantada que habita os rios, oceanos e nascentes e que, nesta obra, clama por cuidado e escuta.

Ao adentrar as matas de Maragogi, Olinda invoca Kaapora, espírito protetor da floresta e dos seres que nela vivem. Diferente das narrativas coloniais que tentaram associá-la a uma figura de medo ou desvio, Kaapora ressurge em sua obra como guardiã da biodiversidade e mensageira de sabedorias esquecidas. De Kaapora emerge uma série de fotoperformances, videoarte e objetos rituais, como o cajado, que marca o deslocamento do corpo encantado pelo território e atua como extensão simbólica da floresta viva. Seu caminhar convoca à responsabilidade e ao reencantamento do mundo — nos lembrando que onde há mata, há espírito.

Ziel Karapotó, por sua vez, desenvolveu um conjunto de obras que tensionam os limites entre arte, ativismo e reterritorialização. A partir da coleta de objetos descartados nas praias e do uso de materiais orgânicos, cria instalações, pinturas e performances viscerais que reatualizam os grafismos Karapotó e evocam a força da entidade Pajé-Peixe, figura mítica que habita os rios e mares como curandeiro das águas e das espécies que nelas vivem. Pajé-Peixe é resistência líquida, é espírito que sangra junto ao coral morto e ao peixe contaminado, mas que também cura com cânticos e grafismos. Ao inscrever suas denúncias na própria matéria que contamina o ambiente, Ziel reverte a degradação em linguagem — e a linguagem em ferramenta de reconexão com o território.

A residência também se constituiu como espaço de escuta e conexão com os povos e saberes locais, entendendo que a produção artística crítica e sensível não se faz

de forma isolada. O contato com pescadores, guardiões do território, mulheres artesãs e jovens moradores de Maragogi permitiu o entrelaçamento de histórias, gestos e práticas que ampliam a potência da arte como ferramenta de transformação. Ao reconhecer os saberes tradicionais como tecnologia de vida, encantamento e cuidado, a residência se tornou campo fértil para trocas interculturais e intergeracionais, fortalecendo vínculos comunitários e semeando novas formas de imaginar, proteger e habitar o território.

A experiência em Maragogi resultou em obras que não apenas retratam a crise climática, mas a enfrentam — não com o desespero, mas com o chamado à reconexão e à coletividade. A presença desses corpos-artistas no território funcionou como dispositivo de decolonização sensível, lançando um olhar crítico sobre o que se perde com a lógica do progresso e o que pode ser resgatado quando nos permitimos reencontrar o tempo das marés, o silêncio das matas e a sabedoria das águas, retornando ao ritmo da terra.

Em tempos de emergência global, a arte indígena contemporânea se afirma como força de reexistência, como prática política, espiritual e poética, como convite à regeneração da vida em comum. Maragogi, com sua beleza ameaçada, tornou-se campo fértil para esse gesto. Ao acolherem essa experiência, Olinda Tupinambá e Ziel Karapotó reafirmam que a arte pode ser território encantado e corpo em luta — ao mesmo tempo semente e grito.

Aline Ambrósio

Aline Ambrósio

Corpos-território em Alerta: Arte Indígena, Maragogi e a Emergência Climática